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terça-feira, 21 de outubro de 2014

OFICINAS POESIA É DA HORA - OUTUBRO 2014



Nas tardes de terça, faço a mediação da oficina Poesia é da hora lá na Tenda de Convivência Alcântara Machado em São Paulo, capital. Coloco na mochila livros, papel, caneta, algumas ideias de pauta e petiscos. Vou-me... não para Pasárgada como foi Manuel Bandeira, mas para debaixo do viaduto que tem também tem nome de escritor: Alcântara Machado, que nasceu em São José do Mauá. Pra quem nunca passou por ali, vou descrever brevemente: É uma paralela da Av. Alcântara Machado com a Rua Piratininga. Referência: Brás. Ao entorno, tem diversos moradores em situação de rua, famílias, cachorros e crianças que utilizam a tenda para tomar banho, lavar suas roupas, enfim socializar. Bom, é ali que vou todas as terças e a cada segundo sábado do mês para executar o projeto Poesia é da hora, com saraus e oficinas literárias. O público é o público do entono. Que mora em seus pequenos barracos e que estão em situação de rua.
Durante a oficina, praticamos leitura e interpretação de texto. Faço leitura de parábolas. Faço a mediação entre uma criação poética e outra, sugiro temas, discutimos assuntos, fazemos jogos para descontrair, há brindes, bate papo e sorteios. Passa rapidão essas duas horas de oficina! Lemos poemas de autores diversos, especialmente os das quebradas e os contemporâneos como: Paulo D’Áuria, Almerio Barbosa, Erton Morais, Ana Paula, Marah Mends, Caranguejunior, André Diaz, Rubem Braga entre outros. No sorteio de brindes entra os cds do Alex Man, Mahlungo, Mokó de Sukata, Pensamento Negro, Vulgo Elemento e falo sobre o trabalho de uma guerreira que admiro muito, por sua luta e sua arte: Regina Tieko. Após juntarmos uma quantidade de textos, produzimos nosso livreto artesanal.
Nesta terça-feira, o aluno Wiliam disse assim:
- Olha, eu quase não sei escrever, mas gosto de participar da sua oficina.
Wiliam sempre participa dos nossos saraus (com música, ele toca instrumento) e também da roda de samba que acontece todas as sextas com o professor Henrique.
Pensei... e agora, Marah?
Sempre levo livros de arte na bolsa por conter muitas pinturas das quais dá para trabalhar a poesia em cada uma delas. De vez em quando uma criança e outra participa da oficina, então, falar de poesia com as figuras, creio que fica mais pessoal para elas. Foi dito e feito. Saquei o livro “Grandes mestres”, pinturas de Gauguin da Abril Coleções e disse para o Wiliam:
- Se você tem dificuldade com as palavras, aposto pode se dar bem com as pinturas.
Ele sorriu. Senti que ficou interessado. A missão era simples: Wiliam foi desafiado a folhear esta obra com 157 páginas e me dizer as sensações ao olhar para cada imagem contida no livro. Sem pressa, sem medo, sem rótulos. Simplesmente dizer com uma ou mais palavras o que aquela determinada imagem causava em seu interior. Foi então que ele começou:
“Quando eu olho para isso aí, me dá medo! ”
“Essa outra... parece uma batalha”. “Essa... a procura da felicidade”. “Uma pessoa inteligente”, “família unida”, “sofrimento”, “fome”; “arrependimento”, “curtindo a brisa”. “Tristeza”, “nascimento de uma criança”. “Política, nesta foto estão discutindo política, acho! ”. “Refúgio”, “orgia”, “luta pelo poder”, “adultério”, “naufrágio”, “partilha”, “perdão”, “luxo”, declaração de amor”, “Sodoma e Gomorra” (e riu quando disse isso). Perguntei:
- Já assistiu ao filme?
E ele:
- Não, eu li na bíblia.
Continuou coma tarefa das imagens:
“Exibicionismo”, “covardia”, “chacina”, “cansado de pensar”, “massacre”, etc.
Cada imagem da obra de Gauguin causou em Wiliam, uma sensação diferente. Disse a ele que essa era uma forma de Gauguin fazer poesia: Com pintura. Disse que tem muita gente que acha que poesia é coisa de fresco, só fala de amor, mas o poema em si pode ser uma crítica social. Uma denúncia entre tantas outras vertentes.
No final da oficina Wiliam me deu um abraço e disse que não sabia que ele tinha um vocabulário tão extenso, pois pouco falava, pouco conversava. Wiliam disse que lembrou da última aula, quando falamos da importância de buscar novas palavras no dicionário e que tinha gostado da parábola do sapo. Você conhece a parábola do sapo?
É... definitivamente, a poesia pode ser uma arte inclusiva! E para todos! Saí de lá com uma sensação boa... Mas, ainda há muito o que fazer. Pois é... há muito o que fazer. Me ajuda?
O projeto Poesia é da hora tem o apoio do Proac.