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segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

O pó que atiça a rinite - Marah Mends


O pó que atiça a rinite.

Em 1998, em uma viagem para BH, você me trouxe um cartão-postal do Mineirão. Já pensou que louco seria
 se a gente tivesse assistido um jogo lá e blábláblá? Talvez do seu time, talvez do meu, provavelmente do meu,
 cê sabe. Pra você é mais fácil ser menos orgulhosa do que eu, então... (trago notícias do futuro: me melhorei
um pouquinho, tá?). Mas aí... ano vai, ano vem, título vem, título não vem (meu time) e, aquele fervor pelo o
 futebol esfriou.

Em março de 2001, você me escreveu uma carta que começou assim: “Quem diria que chegaríamos até aqui, né? 
”. E, pensando mais visceralmente sobre isso, quem diria mesmo! In memoriam: Lucílio, Zoio, Perna, Ball e tantos 
outrxs que de alguma forma, fizeram parte da nossa infância e adolescência e que... deixaram as suas lascas nas
 quinas de bate-testas da quebrada. E a gente... “Quem diria que chegaríamos até aqui, né?”

Em janeiro de 2005, eu madrinha, e você vestida de rosa e sandália branca. Dona Conceição de camisa azul e 
calça preta. Seu Bauru... não sei se era branco ou cinza o que vestia, às vezes me confundo com as cores na vida.

Em novembro de 2006, você entregou um convite amarelo na casa da dona Maria. Era o chá de bebê do Vitão e 
estava escrito assim: “01 Pagãozinho”. Mas que raios é pagãozinho?

Em 2007, você me mandou um e-mail, comentando sobre meus escritos. Você foi a primeira pessoa, depois de 
mim, a acreditar nesse lance de escrever e publicar. No mesmo e-mail, me perguntou sobre as peculiaridades 
da faculdade e, a vontade em cursar Pedagogia um dia. Na reciprocidade, trocamos...

 Foram décadas tretando e fazendo as pazes. Na nossa amizade, coube mais de mil e uma situações fugazes e 
duráveis, capazes de nos arrancar até hoje, o choro e o riso (mais riso que choro). Ainda nos cabe tantas 
memórias e melhorias, que bom! E você, ora veja, escolheu o caminho do Senhor e eu, o caminho das brejas, 
afinal: “Bem-aventurados os que chapam, pois veem o Senhor duas vezes” (é... eu sei que você não gostou 
dessa piada). Mas é o que tenho pra hoje revirando o pó que atiça a rinite.

Marah Mends



segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Poesia é da hora...


Pedra Bruta - Marah Mends



Pedra bruta.
Ela gosta da família por perto, de frequentar templos, de rezar terços, acender velas e incensos, de conversar com os santos para aliviar tormentos, de fazer roda de conversa, de cumprimentar as plantas, os bichos e de ver novela. Ela ralou a vida toda desde menina, lavando roupa para patroa branca e passando por cima de olhares tortos por causa da sua melanina. Buscou através dos estudos, trocar a realidade do pão duro da vida pela utopia do gosto doce da broa. Ela se aposentou por tempo de serviço na área da saúde, antes disso, casou, criou suas crias às vezes sozinha, às vezes acompanhada, mais sozinha que acompanhada, mesmo casada. É que companhia de macho é falha. 
Ela sempre foi a mais forte, a mais mandona, a mais brava, a mais ciumenta, a mais responsável, a mais incrível e, isso também lhe trouxe muita solidão e desgosto exposto. Pra que ser forte o tempo todo, mulher? Que pena que você não toma uma breja, seria a minha melhor companhia de todas as mesas.
Certa vez, viajando só eu e ela, trocamos ideias sobre assuntos que retorcem as entranhas, de mulher para mulherão da porra. Percebo que ela me confia assuntos que são tão nossos e foda-se se você quer saber! O que é nosso é nosso! Fico feliz em exercitar a escuta, confiança é um treco que prezo, confiança é a lapidação em pedra bruta.
Ela está perto dos setenta. Quero poder segurar suas mãos quando tiver com oitenta. Ela é zica, ela é mar bravo, é cafuné, é tormenta, é onda que cai, levanta, e que acolhe as outras ondas.
Será que ela é feliz?

Marah Mends

O velho deitado no sofá - Marah Mends


O velho deitado no sofá.
Ele apreciava a boemia, os botecos, as brejas, as cachaças, as conversas e risadas, as fumaças e os chamegos, mesmo com um anel no dedo. Não perdia uma história contada no bar, ininterruptamente estava lá, jogando dominó e bilhar, às vezes ficava mais lá do que no “ambiente familiar”. O bar era como uma válvula de escape, uma dependência física e emocional, como uma sede que não matava se estivesse em casa. Emputecia quando a família captava complexidades em coisas simples, como chapar em paz e tentar ser livre nesse mundo de merda, liberdade essa que nunca teve e nunca terá. Os anos passaram, os joelhos doeram, os dentes caíram, os cabelos esbranquiçaram, a pele ficou flácida e a disposição soltou a sua mão. Com a saúde capenga deitou em várias macas que o serviço público ofereceu, passou perrengues, chorou, não quis mais chamego com a boemia, entrou numa fase esquisita de querer ser caseiro, botou ponto final nas polissemias. Mas, depois dos setenta a vida ficou muito chata, rotina de ser velho capenga virou uma grande bosta e as vozes ao redor o deixaram mais rabugento do que já era. Agora quase não fala, evita conversas, quase não ri, quase nada de tudo... virou de tudo um nada. Certa vez o velho deitado no sofá, me olhou com aquele olhar de quem não tem muito tempo e disse algo que me intrigou:

- Dos filhos que tive, você é a que mais parece comigo!
Não sei se foi praga ou se foi benção. Não sei se me ofendo, se me alegro, se me corrijo, se sigo ou se me contento. A vida é cheia de verdades perfurocortantes que às vezes a gente resiste em ter por perto, mas elas sempre dão um jeitinho de bater na nossa porta.
Afinal, o que é ser feliz?

Marah Mends

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Último boletim Poesia é da hora de 2018

Salvê!

O último boletim Poesia é da hora vai rolar domingo agora, dia 16/12 às 11h40 na rádio Cantareira FM. E pra fechar 2018 daquele jeito que a gente gosta, vai rolar um texto do livro "A outra me faz roer os dedos", da nossa querida Benette Bacelar, de Porto Alegre.

Foi muito louco produzir esses boletins semanais ao longo do ano e, em 2019 a gente volta com mais novidades.

Gratidão a todxs que forteleceram com seus textos ao longo do ano e com seus eventos culturais. Valeu Gilberto! Valeu Romeyka!

É nóis!
Até domingo!



segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Elefantes têm medo de formigas na Feira Literária de Santo André


Elefantes têm medo de formigas.

Marah Mends

FELISA - Feira Literária de Santo André




Roda de conversa sobre literatura cubana